Este artigo representa o resumo condensado de uma pesquisa de três décadas no campo da abordagem transdisciplinar e do paradigma holístico nas áreas da saúde e da educação integrais.

ENCONTRO TRANSDISCIPLINAR

Compreendo a transdisciplinaridade como um novo pacto (Crema, 2002) [1], que atualiza e substitui o que foi realizado no Século XVII no Ocidente, entre os frágeis mentores do racionalismo científico, na época, e o poder despótico da Igreja, sob a égide da ‘Santa’ Inquisição, segundo o qual a ciência se restringiria ao mundo visível, quantificável e manipulável da matéria, enquanto a Igreja cuidaria do reino da alma, da consciência e do espírito. Assim como nos momentos sombrios da Idade Média o espírito científico era reprimido em nome de algo que, confusamente, era chamado de Deus, na obscuridade da Idade Moderna a experiência do sagrado passou a ser reprimida e patologizada em nome de algo que, de forma confusa, tem sido chamado de ciência. O movimento transdisciplinar mundial (Nicolescu, 2005) [2] representa uma lúcida e sustentável resposta que denuncia o equivocado e perverso princípio de antagonismo entre o objeto e o sujeito, entre a efetividade e a afetividade, entre a exterioridade e a interioridade, entre o conhecimento e o amor. Não se trata apenas de uma ecologia inclusiva de saberes reintegrada à dimensão do sujeito, e de uma nova aliança entre a ciência e a consciência (Morin, 2010) [3]. O que se encontra em jogo é o futuro das novas gerações, o nosso destino comum.

Há mais de três décadas, desde a sua pré-história, tenho sido um operário da Universidade Internacional da Paz – UNIPAZ, que partiu da constatação óbvia de que não é com o paradigma que criou o problema que iremos resolvê-lo. Por esta razão, desde o início fundamentamos nossos programas, projetos e atividades, por um lado, na visão holística (Crema, 1989) [4] – que leva em consideração a relação dialética e sinergética entre o todo e as suas partes, para viabilizar uma visão global para uma ação local – e, por outro, na abordagem transdisciplinar da realidade, que representa o imprescindível e renovador diálogo da ciência com a filosofia, a arte e a Tradição sapiencial. Como afirma o I CHING da antiga sabedoria chinesa, centrada no princípio da polaridade, do processo e da integração dos opostos, o contrário da paz não é conflito e, sim, estagnação (Wilhelm, 1996) [5]. Paz é inteireza em movimento. Para que seja possível uma Cultura de Paz necessitamos de uma educação integral, que acolha e cultive a inteireza humana, pois tudo o que é inteiro é belo, é saudável, é pacífico e é sagrado.

O Poder do Encontro

Desde então tenho afirmado que ninguém transforma ninguém e ninguém se transforma sozinho; nós nos transformamos no encontro. Este é um conceito que cava minha alma e minha existência desde sempre, talvez por ter nascido como o sétimo em uma irmandade de dez, no seio de uma intensa dinâmica grupal. Tornei-me psicoterapeuta de grupo e, neste artesanato relacional laborei por mais de quarenta anos. Em 2017, quando celebramos os trinta anos da UNIPAZ, foi publicado o meu livro, O Poder do Encontro: Origem do Cuidado (Crema, 2017) [6]. Um dos seus objetivos é o de ressignificar a UNIPAZ como uma universidade do encontro, e evidenciar que o encontro é a matriz do cuidado. Não é possível o cuidado sem o encontro; o terapeuta é um suposto encontrar. Entretanto, precisamos indagar: o que é o encontro?

O primeiro capítulo deste livro é um diário de bordo dedicado a homenagear e prestar um tributo de gratidão a alguns mestres do encontro que, através da convivência pessoal e/ou da pesquisa de suas obras, tive a felicidade de encontrar ao longo da primeira década de minha prática profissional. O primeiro deles, J. L. Moreno (2006) [7], que considero o profeta do encontro; Martin Buber (2001) [8], o filósofo do encontro; Carl Rogers (2009) [9], o facilitador do encontro; Frederick Perls (1976) [10] o animador do encontro; Eric Berne (1985) [11] o diagramador do encontro; Rolando Toro (1989) [12] o poeta do encontro; Paulo Freire (1987) [13], o educador do encontro. Finalmente, no início de 1981, travei contato com Pierre Weil (2000) [14], o mestre transpessoal do encontro, que representou um impacto redefinidor e uma radical metanoia em minha existência pessoal e profissional. Com dois fundamentais e complementares documentos, a Declaração de Veneza, e a Carta Magna da Universidade Holística Internacional, ambos redigidos em 1986, juntos realizamos o I Congresso Holístico Internacional – I CHI (1987), que contou com a presença de dois signatários da Declaração de Veneza: Michel Random, representando o Basarab Nicolescu, e nosso caríssimo Ubiratan D’Ambrosio. Este evento, de natureza iniciática, neste mesmo ano impulsionou a criação da UNIPAZ. Desde então tive o grato privilégio de caminhar e colaborar, por cerca de um quarto de século, ao lado deste líder de impecável lucidez e grande coração, um dos notáveis pioneiros da visão holística, ou melhor, holonística – segundo Koestler (1969) [15] -, bem como do movimento transpessoal e transdisciplinar. Juntamente com uma equipe vigorosa, corajosa e resiliente que, pela ordem sistêmica de antiguidade cito: Lydia Rebouças, vice-reitora da UNIPAZ; Ruth Maria Scaff; Cristina Maria Carvalhedo, presidente da Fundação Cidade da Paz, e Regina Fittipaldi. Através deste quaterno de nomes busco honrar centenas de colaboradoras e colaboradores da UNIPAZ matriz do DF e de mais de vinte unidades e núcleos espalhados no Brasil, na Argentina, Portugal, França e Bélgica. Ao longo destes trinta e quatro anos do nosso movimento pude desvelar e desenvolver, gradativamente, o conceito de uma outra qualidade de encontro, sustentada na renovadora abordagem da transdisciplinaridade.

Método analítico e sintético: uma integração

Há dois caminhos para se atingir a compreensão transdisciplinar: o do saber e o do ser. A via do saber é acumulativa, caracterizada pela inteligência analítica, que apreende o todo pelas suas partes, centrada na causalidade, que possibilita a exploração e construção no mundo exterior por meio da sofisticada tecnociência. A via do ser implica em esvaziamento, no silêncio interior, agente de uma visão e escuta não projetivas da inteligência sintética que religa e restaura a totalidade, fundamental na investigação e construção no universo interior, por meio da sabedoria conectiva mitopoética e da via meditativa. Saber é necessário e insuficiente; necessitamos de uma pedagogia aplicada também à tarefa de aprender a não saber, a douta ignorância socrática, posteriormente postulada por Nicolau de Cusa (2002) [16]. Pierre Weil (2005) [17], que inventou o verbo infinir para fazer frente à nossa crise de definição e categorização, também postulou o conceito convergente de holopráxis (1987) [18], referindo-se aos caminhos de despertar da Presença por meio de sofisticadas tecnologias de desenvolvimento da inteligência noética, um legado das Tradições sapienciais, orientais e ocidentais. Trata-se da integração do método analítico ao sintético, uma aliança entre a função redutiva causal do analista e a conectiva transcausal do sintetista (Crema, 1995) [19] – uma expressão que precisei cunhar para indicar esta antinomia de funções metodológicas, distintas e complementares – rumo a uma inteligência integral, que pode ser simbolizada pela metáfora do chifre do Unicórnio, que se refere ao corpo caloso, da interconexão heurística entre o hemisfério consciencial ocidental, da lógica racional empírica do definir, e o oriental, da translógica mitopoética e mística do infinir. Carl Sagan (Sagan, 1983) [20] indicava que o futuro da humanidade depende do corpo caloso. Análise e síntese, palavra e silêncio, saber e não saber são complementares; simbolizam as raízes e as asas, a profundidade e a altitude, para uma apreensão integral da realidade. Como afirmava Lao-Tsé (Lao-Tzu, 2000) [21], o alto descansa no profundo. Parafraseando este sábio taoista afirmo que a síntese descansa na análise, e que o analista adquire orientação e sentido pelo sintetista. Talvez o que mais nos conecte no campo transdisciplinar seja a virtude do não saber, pois nossos saberes são finitos, e o que ignoramos é infinito.

Encontro transdisciplinar

A palavra encontro provêm do latim, in contra, que implica na virtude do paradoxo: com e contra, convergência e divergência, integração dos opostos, coincidentia oppositorum. O Encontro transdisciplinar transcorre na simultaneidade de uma ecologia inclusiva e multidimensional de níveis de realidade, envolvendo o conceito da complexidade e a lógica do terceiro incluído, axiomas fundamentais da abordagem transdisciplinar da realidade, segundo Nicolescu (Nicolescu, 2009) [22] cuja lúcida fidelidade conservou viva a memória de Stéphane Lupasco e sua visionária obra (Nicolescu & Badescu, 2001) [23]. Escrevo Encontro com inicial maiúscula para diferenciá-lo de um encontro simplificado e restrito a paradigmas circunscritos a um exclusivo nível de realidade. Assim, o Encontro transcorre neste amplexo de acolhimento inclusivo de estados diversos e complementares de consciência, acessados através de múltiplos e ampliados portais de percepção, na paradoxal dança entre o concreto e o sutil, entre o literal e o imaginal, entre o visível e o invisível: dinâmica aberta, permanente, simultânea e paradoxal, das dimensões pré-pessoal, pessoal e transpessoal, implicando na convergência e sinergia entre a comunicação e a transcomunicação, de onde brota o cuidado integral (Crema e Leloup, 2010) [24].

Visão antropológica

Para falar do Encontro precisamos esclarecer nossos pressupostos antropológicos (Crema, 2009) [25], ou seja, nossa visão do Anthropos, que modela nossa atitude frente ao humano, nos fundamentos de uma cosmovisão. Postulamos a existência de três dimensões existenciais – soma, psique e nous – dotadas de lógicas e dinâmicas próprias e irredutíveis, atravessadas pela verticalidade essencial do Pneuma, que se entrelaçam no Encontro transdisciplinar. O campo físico do Encontro refere-se à sua dimensão tridimensional material, com suas paisagens naturais, constituída dos reinos básicos do mineral, do vegetal e do animal. Trata-se do plano visível, de nossos semblantes, falas e gestos, que estamos intercambiando neste momento de nossa relação virtual. O campo psíquico refere-se ao nosso corpo informacional, de memórias e de ancestralidade humana, o afetivo, emocional e onírico de nossos dramas da alma. Significa que, neste momento, estamos trocando também memórias, sonhos e sentimentos; nossos antepassados se encontram entre nós – onde mais poderiam estar? O campo noético, consciência da consciência, é tecido de silêncio e de arquétipos, de onde jorram os símbolos, o visível que aponta para o invisível: nosso corpo imaginal, simbólico, mitopoético, o único transparente à esfera da Essência, por sua virtude de pausa, de intervalo, de vacuidade fértil, representada pelo círculo pontilhado no esquema abaixo. Ou seja, também estamos permutando em uma atmosfera arquetípica símbolos, mitos e aventuras visionárias, no campo metaconsciencial que nos envolve. Estes três sistemas interagem, de modo holográfico, na complexa simultaneidade multi, inter e transdimensional do Encontro transdisciplinar:

Encontro biográfico

Um capítulo importante é o do Encontro biográfico, auto encontro, que representa o desafio de evoluir de simples biologia à biografia, do acaso e da necessidade à autoria. Biografia é a grafia da Vida na existência. Confúcio (Droit, 2009) [26] já afirmava que o que diferencia o humano das outras espécies é o inacabamento, a inconclusão. Nós não nascemos humanos, nós nos fazemos humanos em trilhas do autodesenvolvimento. Quão diferente é o sapiens de uma tartaruga, que já nasce tartaruguinha e marcha para o mar! Por esta razão, aclarava Confúcio, somos a única espécie que necessita de educação, para que o potencial de nobreza, do ser-mais, possa se atualizar. A tarefa biográfica é a de desvelar o que Jung (1975) [27] denominava de mito individual. Jamais temos acesso direto à experiência vivida, assim como nunca temos contato direto com um sonho, que não seja através de um relato, graças à mediação da palavra e segundo a lógica de uma razão narrativa. Isto solicita o que Christine Delory-Momberger (2004) [28] postula como a invenção do sujeito, que implica na emergência de uma inteligibilidade narrativa para a edificação de uma identidade irredutível a qualquer outra. Esta pesquisadora biográfica afirma que não fazemos o relato de nossa existência porque temos uma história; nós temos uma história porque fazemos o relato de nossa existência. A hermenêutica compreensiva de Wilhelm Dilthey (1988) [29], que postulou a existência das ciências do espírito, depois renomeadas de humanas, a partir da sua célebre afirmação de que a natureza se explica enquanto a alma se compreende, e que considerava a biografia como o paradigma da inteligibilidade humana, conforma o fundamento básico da abordagem biográfica, destinada a transmutar o aparente caos de nossos dias e noites, de nossos risos e lágrimas, encontros e desencontros, em uma configuração significativa. O processo da autocriação, sempre inacabado, se processa através do que Paul Ricoeur (1983) [30] conceituava de identidade narrativa. Autonarrar-se é autoconstruir-se. Trata-se de tecer o próprio mito com o fio delicado do sentido na pesquisa imperativa do livro da existência, para assumir a sua autoria na condição de sujeito. Encontro biográfico, pois mudar o mundo é mudar o olhar.

Dimensões do Encontro

Além da esfera somática, há o Encontro interpsíquico, da intersubjetividade, que transcorre no domínio vasto e sutil do campo anímico e noético, onde consciente e inconsciente se implicam, em simultânea, complexa e paradoxal sinergia. As dimensões do Encontro conformam o que podemos representar cartograficamente como esferas, climas e paisagens, com diversos graus de sutileza e de abrangência, em círculos concêntricos que se adentram da persona, conformada dos papéis que representamos no palco social, à sombra ou inconsciente pessoal, ao inconsciente familiar transgeracional com suas leis sistêmicas, ao simbiótico que atua como uma antena que capta as energias sutis do campo envolvente, ao coletivo arquetípico do inconsciente filogenético supra pessoal, ao transexistencial ou cármico, ao cósmico já que há em nós poeiras de antigas estrelas, até a acerada e numinosa ponta da metaconsciência do imaginal, que Henry Corbin (1996) [31] denominava de mundo do anjo, fronteira entre a existência e a Essência – ou o Aberto, segundo o poeta Rainer Maria Rilke, que considerava este nome o menos blasfematório para se referir ao divino – representada no centro do diagrama com o símbolo do Infinito. Trata-se de uma cartografia ampliada psiconoética, em um nível crescente de refinamento vibracional na medida da sua interiorização, que venho exercitando na minha prática há quase três décadas, em estreita inspiração e colaboração com Jean-Yves Leloup (2001) [32]. Eis distintas e convergentes pegadas e digitais da totalidade do fenômeno humano implicadas no Encontro transdisciplinar:

Uma vasta fenomenologia

Ao longo de muitos anos tenho publicado, em diversos livros, uma casuística ampla e significativa, que evidencia as atuações interrelacionadas destas diversas esferas psiconoéticas no campo da psicoterapia e da individuação – entre os quais cito o Saúde e Plenitude: um caminho para o Ser (1995) [33] e Antigos e Novos Terapeutas: abordagem transdisciplinar em terapia (2002) [34]. Há, portanto, uma fenomenologia que reveste e fornece uma substância vibrante ao esqueleto conceitual desta cartografia. Este mapa da inteireza humana é também importante para o exercício da leitura hermenêutica seja de um sintoma, de uma crise – como o da pandemia que atualmente impacta a nossa humanidade – ou de uma passagem das escrituras sapienciais. Cada um desses níveis cartográficos pode se expressar, às vezes simultânea e convergentemente com os demais, no diagnóstico situacional de um caso específico. Como afirmam os velhos rabinos, cada frase bíblica é suscetível de setenta e duas interpretações, pois são setenta e dois os nomes que damos para Aquilo que não tem nome. Esta ciência e arte da interpretação representam uma terapia fundamental para o escândalo dos fundamentalismos literalistas contemporâneos, sejam de cunho religioso, psiquiátrico, ideológico, sociológico, político, mercadológico, entre outros. Tratando-se de uma visão transdisciplinar holística, importa integrar a dimensão existencial com a existencial, o relativo com o absoluto. Graf-Dürkheim (1984) [35], criador da terapia iniciática, afirmava que a saúde plena se expressa quando a Essência transparece na existência:

Canta o poeta maior, Rabindranath Tagore (1990)  [36]:

Longo é o tempo da minha jornada, e longo é o caminho. Saí no carro do primeiro raio de luz, e continuei a minha viagem através dos desertos dos mundos, deixando minhas pegadas em muitas estrelas e planetas, O caminho mais longo é o que mais se aproxima de Ti, e a mais difícil aprendizagem é a que leva à extrema simplicidade de um acorde. O viajante precisa bater em muitas portas alheias para finalmente chegar à sua própria; tem que vagar por todos os mundos de fora, para finalmente alcançar o santuário mais íntimo. Meus olhos vagaram longe e por todos os lugares, antes que eu os fechasse e dissesse: ‘Estás aqui!’ A pergunta e o grito ‘Onde?’ derretem-se nas lágrimas de mil torrentes, e afogam o mundo no dilúvio da certeza: ‘Eu Sou’.

Encontro imaginal

A aventura inesgotável do Encontro culmina no universo alquímico e no solo simbólico e fecundo da arena de antigas e atuais narrativas visionárias: Encontro imaginal. Em setembro de 2020 realizamos, a UNIPAZ de Brasília em parceria com o Deep Memory Process, o primeiro congresso internacional, Encontro Imaginal, focado no conceito imperativo e seminal da imaginação criativa. Henry Corbin (1990) [37] desvelou todo um continente esquecido da gnose islâmica no Ocidente – inspirado em Platão e Plotino, fundamentando-se em Avicena (Corbin, 1979) [38], Ibn Arabi (2002) [39], Rûzbehan de Shiraz (1991)  [40], Molla Sadra  (Shirazi & Molla Sadra, 1988) [41] e, sobretudo, Sohravardî (2002) (Corbin, 1990)  [42] [43] -, através do resgate da concepção sutil do mundus imaginalis, denominada de profetologia, teosofia oriental ou filosofia profética. Intermundo, hurqalya, terra das visões, malakut e alam al-mithal são outras denominações para o imaginal, mundo da corporeidade espiritual e das imagens metafísicas, espaço visionário e intermediário entre a dimensão sensível cognoscível e a inefável absolutamente transcendente, entre o finito e o infinito. Uma metafísica da imaginação a serviço de nous, inteligência silenciosa da consciência arquetípica, dinâmica transmutacional no qual o espírito se corporifica e o corpo se espiritualiza, o sutil se materializa e a matéria se sutiliza. A original ousadia da abordagem do mundus imaginalis é a consideração de que o literal é uma metáfora do imaginal: o visível simboliza com o invisível. A história literal é uma metáfora de uma hierohistória ou metahistória imaginal, assim como a geografia visível de nossos mapas convencionais é uma metáfora de uma geografia imaginal, espaço do não-onde, que transcende os limites do sensível, uma topografia visionária, habitada por aspectos psico-cósmicos, imago terrae, onde habitam os videntes, profetas e xamãs.

Uma fenomenologia paradigmática do Encontro imaginal encontra-se no Livro Vermelho, de C. G. Jung (2013) [44], publicado após 48 anos de sua morte. Trata-se de uma autoexperimentação, por ele denominada de confronto com o inconsciente, transcorrida de 1913 a 1930, com a utilização da técnica da imaginação ativa, que consiste no exercício livre, vivencial e construtivo, centrado na apreensão do significado vivo de um fluxo imaginal espontâneo que brota do inconsciente e do vazio fértil da consciência noética, quando liberada do controle crítico, em um processo arquetípico dialógico e de confronto, por meio do qual Jung resgatou a própria alma e a Anima Mundi, nos horizontes cosmológicos de uma psicologia profunda e altaneira. Representa o testemunho impactante de um processo de individuação, com o heurístico valor de uma semente a partir da qual floresceu toda a vasta obra posterior do seu autor, uma casuística rara em um estilo singular que demonstra o poder do Encontro imaginal em ação. Considero Jung um dos precursores do movimento transdisciplinar, com sua psicologia complexa que antecedeu a filosofia complexa de Morin, e sua lúcida denúncia dos efeitos deletérios da especialização disciplinar, promotora de um estreitamento dos horizontes através de uma estéril endogamia intelectual. Jung foi o gênio tutelar e mentor do célebre Círculo de Eranos (Corbin, 2005) [45], fundado por Olga Froebe-Kaptein na década de trinta do século passado, com suas conferência anuais de natureza transdisciplinar, onde ocorria um diálogo aberto e livre entre representantes notáveis dos campos da ciência, da filosofia, da arte e da Tradição, com representantes expoentes a exemplo de Schröndinger, Bohr, Wolfgang Pauli, Mircea Eliade, Gershon Scholem, Gilbert Durand, Von Franz, E. Neumann, Elémire Zolla, Rudolf Otto, Karl Kerényi, Joseph Campbell, Adolf Portmann, Richard Wilhelm, D. T. Suzuki, Martin Buber, Paul Tillich, James Hillman, H. Zimmer, Henry Corbin, entre outros.

Normose, anomalia da mediocridade

Agora, apesar de nossas melhores intenções, o obstáculo nada desprezível com relação ao exercício da transdisciplinaridade em geral, e do Encontro transdisciplinar em particular é o que Pierre Weil, Jean-Yves Leloup e este autor denominamos de normose, a patologia da normalidade (2017) [46], que se traduz por um conjunto de comportamentos, atitudes e hábitos dotados de consenso social e patogênicos em diversos graus de gravidade. Compreendo que há três fundamentos da normose. O primeiro é o sistêmico: a normose surge quando o contexto no qual vivemos encontra-se dominantemente desequilibrado, enfermo e corrompido, pleno de contradições e de sintomas como a falta de escuta, de respeito, de cuidado e de fraternidade, com o predomínio da violência contra o indivíduo, a sociedade e a natureza. Neste caso, a normalidade torna-se uma patologia normótica, e a pessoa autenticamente saudável caracteriza-se por um desajustamento consciente, uma indignação justa, uma angústia sóbria. O segundo fundamento é o evolutivo: a normose pode ser compreendida como uma estagnação evolutiva e o naufrágio da alteridade, causada pela ausência ou insuficiência de investimento no potencial de autodesenvolvimento humano, sobretudo na esfera interior da psique e da consciência. Em outras palavras, o ser humano introduziu uma outra ordem de complexidade e de qualidade intencional, consciente e voluntária na dinâmica evolucionária, que Henri Bergson (2009) [47] denominava de processo evolutivo vital e livre, Edgar Morin (2014) [48] de aspecto meta-natural do humano, e Basarab Nicolescu (2009) [49] de autotranscedência. Além do acaso, da necessidade, das mutações genéticas aleatórias e do jogo da seleção natural darwiniana aplicadas ao campo da natureza, a evolução humana é de ordem cultural e transpessoal, exigindo um intento consciente e um intenso trabalho sobre si mesmo, que Jung (2014) [50] postulava como processo de individuação. Trata-se de uma característica ímpar do ser humano sustentada pelas tradições iniciáticas milenares, a exemplo das obras notáveis de Plotino (2002) [51], de G. I. Gurdjieff  (2017)  [52] e de Sri Aurobindo (2018)  [53], e por significativas cartografias da psicologia transpessoal contemporânea, como as de Stanislav Grof (2000) [54], Ken Wilber (1999) [55] e Karlfried Graf-Dürckheim (1995) [56], entre outras. O terceiro fundamento é o paradigmático, tal como concebido, no seu sentido mais vasto, por Thomas Kuhn (1976) [57]. Neste caso, a normose surge quando o paradigma que ainda prevalece encontra-se esgotado no seu potencial criativo e, até certo ponto, esclerosado, sendo que o criativo emergente é postulado por um grupo minoritário. Como afirmava Max Planck, segundo Kuhn, uma nova verdade científica não triunfa pelo convencimento dos seus oponentes que, dotados das virtudes de abertura e de humildade renunciam às suas velhas certezas, senão porque, simplesmente, eles morrem. Assim, de enterro a enterro e de berço a berço uma nova geração se desenvolve, aberta e receptiva a um novo aprender a aprender. Encontra-se aqui em jogo a nobreza indicada por esta paradoxal e feliz expressão de Henry Thoreau (2009) [58]a maioria de um. Em suma, a normose é uma patologia do desencontro, da pequenez e da mediocridade humana. A utopia realizável do Encontro implica na transgressão dos trilhos normóticos conhecidos, confortáveis e previsíveis, rumo às trilhas evolutivas, inusitadas e inexistentes, que teremos que inventar com os próprios passos.

Uma nova linguagem

O Encontro transdisciplinar solicita um código renovado de expressão que transcenda a clausura dos fragmentados dialetos dos discursos disciplinares. Como a transdisciplinaridade representa a dialogicidade entre a ciência, a filosofia, a arte e a Tradição espiritual, coloca-se então o desafio de uma alquimia do verbo que possa dar voz a todos os estilos epistemológicos nela envolvidos e entretecidos. Como dosificar o racional discurso acadêmico com a fala poético-metafórica, e o profundo silêncio que expressa o sussurro do indizível? Como aliar a voz do dia, da clara razão, com a voz da noite do abismo da alma; a voz do crepúsculo, sonho do alvorecer, e a prece do entardecer? Contradigo a mim mesmo porque sou vasto, afirma o poeta Walt Whitman  (2005) [59]. Apenas os estreitos não se contradizem. Construímos nossas existências da mesma forma como construímos nossas frases, segundo a terapia semântica e a psicolinguística. A palavra nos acompanha, em convergência paradoxal e ressonância musical, quando nos atrevemos a exercitar um Encontro mais amplo, inclusivo, contraditório e complexo. Gosto de confiar que se encontra em construção, na conspiração do laboratório e oratório da abordagem transdisciplinar, uma metanoia da linguagem na qual pensamento e sentimento, sensação e intuição, verso e prosa, obra e biografia, literal e imaginal, racional e irracional, fórmula e poema, diabolos e symbolos, Logos e Eros estejam harmoniosa e paradoxalmente conjugados, para que o discurso possa ser, também, canção. Quero concluir com o poeta maior, Fernando Pessoa  (2019) [60]:

 

Para ser grande, sê inteiro:

nada teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa.

Põe quanto és no mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda brilha,

porque alta vive.

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Weil, P. (1987). Nova linguagem holistica: Pontes sobre as fronteiras das ciências físicas, biológicas, humanas e as tradições espirituais. Espaço e Tempo/CEPA.

Weil, P. (2000). Lágrimas de Compaixão. Pensamento.

Weil, P. (2005). Rumo ao Infinito. Vozes.

Weil, P., Leloup, J.-Y., & Crema, R. (2017). Normose: A patologia da normalidade. (5o ed). Vozes.

Wilber, K. (1999). O Projeto Atman. Uma Visão Transpessoal do Desenvolvimento Humano. Cultrix.

Wilhelm, R. (1996). I ching o livro das mutações.

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[33] Crema, R. op. cit.

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[44] Jung, C. G. O Livro Vermelho. Liber Novus. Edição e introdução Sonu Shandasani. Petrópolis: Vozes, 2013.

[45] Corbin, H. El Imam Oculto. Buenos Aires: Losada, 2005.

[46] Weil, P.; Leloup J-Y.; Crema, R. Normose, a patologia da normalidade. Campinas: Verus, 2003. Petrópolis: Vozes, 2019.

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[48] Morin, E. Os Sete Saberes necessários à Educação do Futuro. SP: Cortez; Brasília: UNESCO, 2002.

[49] Nicolescu, B. op. cit.

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[51] Plotino. Tratados das Enéadas. SP: Polar, 2002.

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[53] Sri Aurobindo. A Vida Divina. Uma Visão da Evolução Espiritual da Humanidade. SP: Pensamento, 2018.

[54][54] Grof, S. Psicologia do Futuro. Lições das Pesquisas Modernas da Consciência. Niterói: Heresis, 2000.

[55] Wilber, K. O Projeto Atman. Uma Visão Transpessoal do Desenvolvimento Humano. SP: Cultrix, 1999.

[56] Graf-Durckheim, K. Sous le signe de la Grande Expérience. Paris: du Rocher, 1995.

[57] Kuhn, T, S. A Estrutura das Revoluções Científicas. SP: Perspectiva, 1976.

[58] Thoreau, H. D. Walden ou A vida nos bosques. SP: Global, 1985.

[59] Whitman, W. Folhas de Relva. SP: Martin Claret, 2005.

[60] Pessoa, F. Odes de Ricardo Reis. Porto Alegre: L&PM, 2019.

Antropólogo, Psicólogo e Mestre em Ciências Humanas e Sociais pela Universidade de Paris, Roberto Crema é Reitor da Universidade Internacional da Paz - UNIPAZ. Implementador da Formação Holística de Base no Brasil e coordenador, durante vinte anos, do Colégio Internacional dos Terapeutas, é orientador, com a Lydia Rebouças, de uma formação no cuidado integral, Quinta Força em Terapia, na UNIPAZ de Brasília. Pioneiro na abordagem transdisciplinar holística, Crema viaja pelo Brasil e pelo mundo proferindo palestras e orientando cursos e seminários. É autor e coautor de mais de trinta livros, tais como “Introdução à Visão Holística”, “Saúde e Plenitude”, “Antigos e Novos Terapeutas”, “Pedagogia Iniciática” e “Mensagens do Deserto”.

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