Um dos paradoxos da crise contemporânea diz respeito à uma hipertrofia de nossos saberes e de uma desoladora atrofia do ser, do universo da interioridade, da consciência do Aberto, do vazio fértil, da nobreza humilde do não-saber…


A revolução informacional das últimas décadas, também denominada de terceira revolução industrial, nos conduziu a um naufrágio da compreensão pela avalanche inevitável e incontrolável de informações desvairadas, um tipo de poluição de textos sem contextos, onde conhecimentos relevantes convivem com o lixo de fake news e de banalidades…
Mais do que nunca necessitamos da virtude de Sócrates, considerado o mais sábio na antiga Grécia, por ter sido o único que sabia não saber, aquele que nada respondia e que contestava, por uma indagação permanente, o simplismo de todas as respostas. Trata-se de resgatar o que Nicolau de Cusa, no Século XV, denominava de douta ignorância.
Sim, necessitamos dos saberes, engendrados pela nossa sofisticada tecnociência, desde que acompanhados de uma disciplina de esvaziamento da mente, que quase sempre mente, por ser produto da ilusão do passado e da ficção do futuro. Para isto, precisamos resgatar os tesouros contidos em todas as tradições sapienciais da humanidade, que nos brindam suas sutis tecnologias iniciáticas que visam o despertar para o Ser, por vias meditativas, o exercício da ascese imperativa no universo da mística. Pois a existência é menos um quebra cabeça a ser resolvido do que um mistério a ser sorvido, um poema a ser dançado, uma prece a ser ofertada…
Verdadeiramente sábia é a pessoa capaz da virtude que, na tradição zen, é denominada de mente do principiante, uma atitude aberta diante do Mistério do Real, que sempre nos escapa. Por mais que saibamos, o que sabemos é finito, e o que não sabemos é infinito.
Necessitamos saber para fazer, e de não saber para aprender. Eis três palavras que são pura magia, ‘eu não sei’, que abrem um espaço criativo para a renovação e recriação permanentes.
A verdadeira compreensão brota da integração entre o saber e o ser, entre a palavra e o silêncio, entre a ação e a contemplação.
Como postulamos na UNIPAZ, Universidade Internacional da Paz, trata-se de dizer sim ao imenso e necessário desafio da Aliança entre a ciência e a consciência, por meio do diálogo entre todas as formas do saber, do fazer e do ser. Não apenas visando a conquista de uma inteligência integral; sobretudo, em prol de um futuro viável para as novas gerações, no coração da crise civilizacional que estamos testemunhando.
Enfim, quando a nossa mente se esvazia a nossa taça transborda…
A coragem de não saber implica na dança integrativa entre a razão e o coração, entre a sensação e a intuição, entre a inteligência masculina e a feminina, entre o Ocidente e o Oriente, entre a Espada e o Graal. Evoluir da arrogância do suposto saber para a elegância do não saber, eis a questão!

Antropólogo, Psicólogo e Mestre em Ciências Humanas e Sociais pela Universidade de Paris, Roberto Crema é Reitor da Universidade Internacional da Paz - UNIPAZ. Implementador da Formação Holística de Base no Brasil e coordenador, durante vinte anos, do Colégio Internacional dos Terapeutas, é orientador, com a Lydia Rebouças, de uma formação no cuidado integral, Quinta Força em Terapia, na UNIPAZ de Brasília. Pioneiro na abordagem transdisciplinar holística, Crema viaja pelo Brasil e pelo mundo proferindo palestras e orientando cursos e seminários. É autor e coautor de mais de trinta livros, tais como “Introdução à Visão Holística”, “Saúde e Plenitude”, “Antigos e Novos Terapeutas”, “Pedagogia Iniciática” e “Mensagens do Deserto”.

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