A arte de cuidar

A Arte de Cuidar é a de saber escutar. Escutar não é só ouvir; é também interpretar. O terapeuta é alguém capaz de interpretar, alguém capaz daquilo que chamamos da ciência e arte da hermenêutica. Como dizem os antigos rabinos, cada frase bíblica é suscetível de 72 interpretações. Ou seja,  cada sintoma, cada sonho, cada crise que vivenciamos é sucetível de pelo menos 72 interpretações.  Isso nos previne contra este flagelo contemporâneo que se chama fundamentalismo e fanatismo; não só o religioso, também o fundamentalismo mercadológico, ideológico, pedagógico, psiquiátrico, político, etc. Fundamentalismo é superficialismo e literalismo, é tomar a parte pelo todo; é o naufrágio da interpretação, o que nos torna objetos das circunstâncias, já que nós somos livres na justa medida da nossa capacidade interpretar. Nós não somos livres com relação àquilo que nos chega, que pode ser um tsunami, um terremoto, uma crise econômica, uma perda. A nossa liberdade consiste no que somos capazes de fazer com aquilo que nos chega e isso solicita a interpretação. Uma pessoa que aprendeu a interpretar não vai se deixar soterrar nas adversidades, pois a única crise intolerável é aquela para a qual nós não temos nenhum sentido para dar. O único sofrimento que pode nos destruir é aquele que não interpretamos. Se você é capaz de interpretar você extrairá o néctar de um sentido em seja lá o que fôr que te suceder. Isso vai te ajudar a se colocar de pé e prosseguir, através do passo seguinte.

“-Te vejo. – Estou aqui”. Eu amo muito essa expressão, que vem da tradição xamanística da África do Sul: quando as pessoas vão saudar umas às outras, no idioma zulu, eles dizem: “sawubona”, que significa te vejo; e a resposta é “sikhona”, que significa: estou aqui. Eis o coração de uma nova educação: educar pra ver, educar para a presença, educar para cuidar, educar para  escutar, educar pra interpretar. É atender o telefone que toca (um telefone tocou na audiência). Toda crise é um telefone que toca e nós precisamos atender, escutar e interpretar, senão vai continuar tocando,as vezes com outros números. Infelizmente, no que denominamos de normose, a patologia da normalidade, afirmamos: “tomou doril, a dor sumiu”. Você vai ao médico com um problema e, quando normótico, a única atitude deste técnico será eliminar o sintoma. Eu penso numa pessoa que me procurou no consultório com dor nos seios, depois de ter consultado com muitos médicos, em vão. Ela já estava com algumas fantasias catastróficas a respeito. O terapeuta indagou: você pode se colocar no lugar dos seus seios, se identificar e falar como se fora seus seios? Ela então, ao entrar em contato com os seios, imediatamente se conectou com algo que tinha recentemente acontecido: ela tinha se separado do marido e porque ele tinha condições econômicas melhores ela abriu a guarda do filho. Desde então os seios começaram a doer. E quando ela pode fazer a catarse, redecidindo a sua atitude, ela saiu do consultório sem dor. Agora, imagina se ela não tivesse escutado o seu sintoma, se ela não o tivesse interpretado… um dia ela faria uma doença física. Geralmente as doenças começam num plano mais sutil e depois contagia o plano mais concreto, que é o físico.

Cuidar da saúde através da escuta e da interpretação… e da bênção. O terapeuta é alguém capaz de abençoar, ou seja, dirigir ao outro um bom olhar e uma boa palavra. Trata-se de jamais rotular ou reduzir o outro ao seu menor, a um sintoma , a um sofrimento. Abençoar é ser capaz de reconhecer no outro o seu potencial, não só de saúde,  também de plenitude. É ser capaz de reconhecer no outro o  semblante original, a dimensão do sujeito. É uma pena que nós não nos abençoamos mais, que não pedimos mais a benção. Namastê! Namascar! Aloha! Te vejo! são diferentes e singelas formas de abençoar, proveniente de culturas onde a tradição sapiencial ainda é viva. Aloha!, por exemplo, é uma bênção oriunda da tradição xamanística dos Kahunas do Havaí, que significa trocar energia, trocar amor. No Japão, o inclinar-se perante o outro também é um rito de bênção, de reconhecimento da nobreza humana.

Ao entrar em algum consultório você já presenciou o rito do terapeuta inclinar-se diante de você? Ou um professor, numa sala de aula?… Não? É uma pena e uma indicação de que nós perdemos de vista o que é um ser humano no seu potencial de inteireza; esse espaço onde o próprio universo pode aprender a se conhecer, a se saber, a sonhar, a sorrir, a cuidar, a orar, a abençoar. Uma pessoa que foi uma única vez abençoada pode atravessar infernos. Qual foi o primeiro ato terrorístico na tradição judaico-cristã? Eram dois irmãos, um se sentia abençoado, se sentia acolhido pelo mistério da vida, ele era pastor e oferecia o seu melhor ao Senhor da Vida. O outro não se sentia abençoado, não se sentia aceito pelo Mistério, então calculava, invejava e… Caim mata Abel. Caim e Abel são arquétipos no interior de nós mesmos e prevalacerá aquele que for alimentada com a nossa atenção e energia. Uma pessoa que se sente abençoada não é violenta, eis uma arte da paz. A maldição, o mau olhar e a má palavra, eis uma fonte da violência humana.

O olhar e a palavra são estruturantes. Olhar para a luz no outro e dirigir-lhe uma palavra de reconhecimento e de acolhimento estruturam o bem, o belo e o bom. Por outro lado, olhar apenas para a sombra e dizer olá apenas para o sintoma do outro, estruturam o mal, o feio e a pequenez. Não apenas no outro, também em si mesmo. Pois nos tornamos aquilo para o qual olhamos e aquilo que evocamos.

Uma normose terapêutica muito frequente é a de fazer um inventário apenas do que é disfunção, sintomático, desequilíbrio e enfermidade na pessoa. Nós encontramos aquilo que buscamos. Em outras palavras, a porta na qual batemos é a que se abre, naturalmente. Diz o poeta Neruda: Se cada dia cai dentro de cada noite, então há um poço onde a luz está retida. Basta sentar ao lado do poço e pescar luz caída, com paciência. O autêntico terapeuta é um pescador de luz caída…

De uma maneira intuitiva, aprendi a praticar a ética da benção na minha primeira infância. Quando pequeno eu percebi que o mundo estava um pouquinho mal frequentado. Então, para sobreviver, eu adotei a conduta de olhar para a luz das outras pessoas, o que torna o mundo, imediatamente, melhor frequentado… Isto é o que no Colégio Internacional dos Terapeutas denominamos de ética da bênção.

Ficar atento à luz do outro e à sombra em si mesmo é pura alquimia de libertação. Experimente! Durante apenas um dia, imagine que todas as pessoas são Budas, exceto você! Talvez neste dia você se verá aprendendo com todas as pessoas à sua volta, pois tudo neste mundo pode nos ensinar algo de bom, quando nos abrimos para este aprendizado. Mas não acredite simplesmente nisso; faça a experiência. O mundo pode se tornar, imediatamente, um local mais habitável e digno. Mudar o mundo é mudar o olhar.

A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos não é o que vemos senão o que somos, diz um belo poema de Fernando Pessoa. Quando mudamos o nosso olhar, quando somos capazes de bênção, nós também transformamos o mundo. Você não  me engana;, eu sei quem você é. Eu sei que você foi aceito pela Vida; quem sou eu pra lhe recusar? Quem sou eu pra lhe dar notas, para lhe comparar com qualquer outra pessoa.? Você não me engana, eu sei que você é um ser humano, que há em você uma centelha do Infinito Eterno! Você é um ser humano!, eis uma bela bênção. Na pedagogia hindu, essencialmente o ser humano é Sat, Chit, Ananda: Ser, Consciência pura, Bem-Aventurança. Eis a sábia exclamação de Shankaracharia: Eu sou Eterna Beatitude e Consciência Pura, Eu Sou, Eu Sou!

Como afirmava Heidegger, a tragédia moderna é o esquecimento do Ser. Nós tombamos no esquecimento do Essencial que nos fundamenta, eis o resumo da Queda. Abençoar é acenar para a Essência Luminosa da pessoa enquanto Ser e Senhor da própria existência. Entretanto, somente podemos abençoar o outro quando já nos abençoamos a nós mesmos; quando já cavamos a nossa pedra bruta e minimamente chegamos a provar do Diamante do Ser…

Ser um terapeuta é cuidar, é escutar, é interpretar, é abençoar e é também sorrir. O sorriso é um grande segredo. A menor distância entre duas pessoas é o riso e é a lágrima. Entretanto, o sorriso não tem oposto, constituindo o apanágio do humano. Saber sorrir, sorrir saber, talvez seja a expressão mais simples da nobreza encarnada em cada um de nós. Não é por acaso que a maioria das pessoas que visita o museu do Louvre, em Paris, para diante da imagem de uma mulher que sorri, de forma enigmática, arte maior de Leonardo Da Vinci. Eis o segredo do Dalai Lama, que sorri olhando para o seu relógio ou para um copo d’água em sua mão… O sorriso é a forma mais simples de abençoar e de expressar a paz. Sorrir significa não se levar a sério, não levar o mundo a sério. Significa relativizar o que é relativo, conectar-se com o essencial, porque do secundário vem a discórdia. Sorrir é compreender que o mal é relativo, é esquecimento de si, é ignorância existencial. Enquanto o amor é de onde viemos e para onde retornaremos, é a ciência e a tecnologia mais poderosas de todos os universos e é quem dirá a palavra final. Como já disse um filósofo, tudo dá certo no final; se não estiver dando certo agora é porque ainda não estamos no final!

O sorriso é um dom premonitório e uma profecia que nos lembra que tudo passa, exceto o Amor. Por esta razão, eu gosto de praticar a meditação do sorriso. Basta silenciar e sorrir – e o Sol da Essência começa a irradiar os seus raios, de dentro para fora, iluminando e aquecendo, a partir do interior, o mundo inteiro. Muito além do sorriso amarelo paira o sorriso da graça, de graça, de sol e de sagrado. Fonte de uma confiança original, do confiar que é fiar com, fiar consigo, com o outro, com a humanidade, com a própria Vida, um sorriso de parceria com o Mistério, de aliança do melhor em nós com o melhor do outro e de tudo. – Te vejo. – Estou aqui.

Então, tudo isso é apenas para dizer que eu lhe reconheço como um terapeuta ou um cuidador e que essa formação é para lhe certificar, também, como um ser capaz de um cuidado integral, a partir de uma ecologia inclusiva: individual, social e ambiental. É um longo processo, mas é preciso, em algum momento, assumir a responsabilidade, habilidade em responder, tornando-se um agente de um cuidado total. Antes de prosseguirmos, na direção de uma Ecologia do Ser, abriremos um espaço para questões, para você expressar a sua palavra.

Pergunta: Cuidar, em primeiro lugar, é da saúde; e depois da saúde …?

Resposta: Cuidar da saúde através da escuta, através da interpretação, através da benção, através do sorriso, mas também observar o que no outro é disfuncional e facilitar, através da saúde, que a ferida se cure. Trata-se de uma ressignificação da palavra terapeuta e da função terapêutica. Agora, cada caso é um caso; não há receita, eu não posso lhe responder sobre o depois, porque cada pessoa é um ser único. Cada ser humano necessita de uma pedagogia única, de uma terapia singular, intransferível e incomparável. Não há resposta a priori. Mas se você for capaz de olhar para o outro e escutá-lo, você poderá facilitar que ele também se olhe e se escute e encontre a sua própria resposta. O  terapeuta não é aquele que tem a resposta; é aquele que facilita que a pessoa encontre a resposta que já está lá, no coração da sua pergunta.

P: Sobre o abençoar, as famílias antigas gostavam de abençoar…

R: Eu sou de uma geração que ainda sabia pedir a bênção e abençoar. Sempre pedia para minha mãe:  – “A bênção, mamãe! – Deus te abençoe, meu filho!”. É belo este rito. Mas não precisa ser desse jeito, há muitas outras formas… Talvez uma de nossas tarefas seja a de reinventar a arte de abençoar.

P: Tem que falar de coração mesmo, senão, nas famílias que estão acostumadas a pedir bênção, isto acaba se tornando uma obrigação, algo automático que acaba por se tornar normótico. E aí não é uma coisa verdadeira, é uma coisa que as famílias cobram: – Vem pedir benção!!! Então se pede benção porque você sabe que se não pedir vai levar uma bronca.

R: Agora, nós sabemos quando somos abençoados, isto nós sabemos… Há uma passagem muito bonita do Cântico dos Cânticos, quando é dito: “Na presença do bem amado o meu nardo exala o seu perfume.” Quando você está na presença de um olhar que te aceita verdadeiramente, o seu melhor, a sua melhor fragrância se expressa; isto nós sabemos. Agora, nós sabemos também quando não somos abençoados, mesmo que a pessoa diga palavras aparentemente de bênção, nós sabemos e algo em nós se fecha, se encolhe. A sua questão é muito importante, porque se trata da transparência e da veracidade, virtudes raras que não são conquistadas facilmente. Mas se você me perguntar o que é saúde plena, eu lhe respondo: é transparência, é veracidade, é quando a essência transparece na existência. É por isso que temos que ser muito pacientes conosco, com o outro, com todo mundo; porque quem não tem paciência não vê pedra florar…

P: Essa questão do sorriso é bem interessante… Eu sou administradora e tenho que administrar bastante conflitos no dia a dia. As pessoas dizem assim: – Ah, com ela não tem jeito, ela já chega sorrindo! Isso facilita um monte de coisas.

P: Roberto, na verdade, eu gostaria de saber o que você pensa sobre a questão relacionada ao comportamento de propriedade na sociedade, já que não somos seres humanos tendo uma experiência espiritual e sim espíritos tendo uma experiência humana.

R: Isso me faz pensar num ancião da tradição nativa norte americana, com cento e um anos; perguntaram a ele: – O que você faz? Ele respondeu: – Eu ensino meu povo. – O que você ensina? Ele disse; – Quatro coisas: primeiro, a escutar. Segundo: que tudo está ligado com tudo. Terceiro: que tudo está em movimento. Quarto: que a terra não é nossa, nós é quem somos da terra. Então, de fato, essa concepção de propriedade, que é muito arraigada, sobretudo nesse tempo em que vivenciamos um capitalismo exacerbado, é uma ilusão. Nada nos pertence, a não ser aquilo que doamos. Mas todos vamos aprender esta lição fundamental, paz-ciência, ciência da paz. A hora da morte é a ocasião em que  vamos aprender isso: que nada nos pertence. Tudo o que julgamos ter nos será arrancado pela maestria da morte. A única coisa que a morte não nos pode tirar é aquilo que nós oferecemos, o que fomos capazes de ofertar incondicionalmente. Aqui chegamos nús e daquí partiremos nús; o único passaporte que levaremos é o de nossas doações. Por isso doar é tão importante; uma pessoa é rica não na medida do que tem mas na medida do que é capaz de se contentar e de doar do que tem, do que sabe e do que é.

Fernando Pessoa diz num poema:

“Basta a quem basta o que lhe basta,

o bastante de lhe bastar.

A vida é breve, a alma é vasta

Ter é tardar.”

É muito belo: “Ter é tardar”. Então, a ilusão da propriedade é a que nos aprisiona e nos faz tardar, pelo peso dos apegos, de todas as nossas identificações.  A tarefa da saúde, a tarefa da paz é a tarefa do movimento: a de dar o passo seguinte. Como dizem os bons navegantes, o único naufrágio é não partir. A única tragédia é determos a marcha rumo à leveza do Ser. Quando nós estamos na ilusão da propriedade, de querer ser proprietário de algo, de um cargo, de uma pessoa, de um conhecimento, de um status, nossas mãos estarão fechadas e nós não vamos receber o maná do agora. Seremos miseráveis, mesmo que tenhamos helicópteros e fortunas em bancos da Suíça; seremos pobres diabos. Um exemplo de uma pessoa realmente milionária é o testemunho nos dado por Francisco de Assis.  O ladrão foi roubá-lo e ele saiu correndo atrás dele: – Não leve só isso, por favor; leve mais esses trapos! Então, a abundância é um estado de consciência que não tem a ver com a propriedade, tem a ver com o saber que nada somos e, ainda assim, que nós somos amados infinitamente pela Vida e que basta ser! Se ter é tardar, ser é partir. Basta ousar mais um passo a partir de onde nós nos encontramos. Para sempre dar o passo seguinte, precisamos aprender a morrer a cada momento, para renascer no momento seguinte, na eternidade do Instante. Neste sentido, a morte é uma grande mestra. O problema é que todo mundo quer renascer e poucos aceitam morrer…

P: Essa fase de interpretar na nossa atual normose não seria uma armadilha? Qual seria a qualidade de um bom interpretador? A nossa mente toda hora quer entrar naquele monólogo…

R: A mente mente. Esta é uma grande questão, eu não poderei esgotá-la, naturalmente, mas talvez possa fornecer algumas indicações. Há duas formas de escutar, de conhecer  e de interpretar. Uma é a analítica: interpretar é explicar. Como o paradigma convencional é inerentemente analítico, todos aprendemos este tipo de interpretação redutiva causal, que é a que eu percebo na sua questão que, neste sentido, é muito justa. Esta forma analítica de interpretar tem o seu substrato neurofisiológico no hemisfério cerebral esquerdo, do racionalismo positivista, da lógica, da previsão e da angústia humana. Analisar é fragmentar o todo para tentar compreendê-lo por suas partes, a tarefa diabólica – do diabolos, que significa o que divide. Utilizo este termo de forma epistemológica e não valorativa. Todos fomos educados para retalhar a totalidade e buscar explicar todos e tudo.  Há um quarto de século eu compreendi isto no meu consultório, como um analista didata. Uma pessoa me procurava porque sofria e sofria porque estava fragmentada no seu interiior, nos seus relacionamentos, na sua existência. Percebi, então, que com o meu elegante bisturi analítico eu só tinha aprendido a dividir e fragmentar, ainda mais, o todo do individuo – que significa indivisível – ou seja, atomizá-lo, para supostamente explicá-lo. E depois de alguns anos de uma análise bem sucedida, lá estava o pobre normótico, fragmentado bem organizadamente!… Jamais deixei de ser analista, pois esta é uma função muito importante, para investigar o mundo exterior e desenvolver tecnociência. Entretanto, este é um método insuficiente e perigoso, quando usado exclusivamente. Como fica implícito na sua questão, a nossa mente é uma comadre fofoqueira, que fica o tempo todo repetindo as mesmas coisas, sobretudo o que nós decidimos na primeira infância. Um dia experimente: fale tudo o que vier na sua mente – não vai ser fácil, a censura é impiedosa, mesmo que você esteja só num quarto a portas fechadas – ligue um gravador e fale tudo que vier. E, por compaixão, escute apenas no dia seguinte… Você verá, então, a quantidade de lixo que contamina a sua mente, o passado que assassina a vivência do instante. E isto prossegue, pois não aprendemos a abrir a nossa escuta para o nosso interior e acabamos vítimas da compulsividade de pensamentos perversos, de diálogos internos tóxicos, de autotortura, de autopiedade, de emoções delinquentes que nos assaltam pelas costas… Entretanto, para o mergulho na interioridade e para desenvolver as virtudes da alma, necessitamos de uma outra via de escuta e de interpretação: a sintética. Foi através desta via que o Eduardo Weaver e eu iniciamos este encontro: pelo silêncio.

O método sintético se respalda no hemisfério cerebral direito, do sentimento, da intuição, da melodia, do não saber. Por isso, em metodologias que vocês vão encontrar no EduGaia e em todas as metodologias da UNIPAZ, você vai vai se deparar com essa dupla forma de atuar diante da realidade. Uma é através da mente analítica, que precisamos respeitar e honrar, para desenvolvermos o imprescindível rigor crítico, para nos preenchermos de novas informações e construir no mundo exterior. A outra é por meio de uma via sintética, pelo aprender a não saber, pela arte do esvaziamento, para lograrmos a plena atenção ao instante, o que Khrisnamurti denominava de atenção sem escolha. Esta é a arte de estar aqui, de testemunho, de observação interior. A meditação, que você vai encontrar em todas as tradições sapienciais da humanidade, no budismo, no xamanismo, no taoismo, no cristianismo, no judaismo, nas tradições gnósticas antigas e contemporâneas, é a via real que nos oferece uma tecnologia de desenvolvimento da escuta silenciosa, para você se esvaziar do passado e do futuro. A interpretação por este método não é pela explicação, mas pela compreensão, pela comunhão. Wilhelm Dilthey, um grande filósofo do iluminismo alemão, desenvolveu uma hermenêutica compreensiva, desenvolvendo o que denominou de ciências do espírito, que depois foi renomeada de ciências humanas. “A natureza se explica, a alma se compreende”, conclamava este grande desbravador de uma visão holística. Ele foi contemporâneo de Freud e percebeu bem a contradição e estreiteza de um método neopositivista e redutor, que busca naturalizar a inteireza vasta e incapturável da alma. Na verdade, ele contestou, de forma lúcida e ousada,  todo um espírito da época que predominava no século XIX e início do XX, que insistia na competitividade e no determinismo: Marx e a competição entre as classes sociais e o determinismo econômico; Darwin e a competição entre as espécies e o determinismo biológico, Freud  e a competição entre as potências da alma e o determinismo psíquico, e ainda o determinismo geográfico, entre outros. Além de Dilthey, outras vozes lúcidas se ergueram, apontando para o horizonte do symbolos, que é o oposto do diabolos e significa o que religa e joga pontes entre as fronteiras que a mente analítica inventa, como Jung, Assagioli, Viktor Frankl, Pietro Ubaldi, Krishnamurti e, mais perto de nós, Pierre Weil, entre outros. O que buscamos na abordagem transdisciplinar é a integração entre o método analítico e o sintético, entre o hemisfério esquerdo e o direito, entre o Ocidente e o Oriente, entre o saber e o ser, entre o conhecimento e o amor, entre a explicação e a compreensão ou comunhão.

Assim, há uma forma de interpretar que vem do silêncio interior. Se não há silêncio interior, não haverá espaço para o Encontro consigo, com o outro, com a natureza e com o Mistério da Vida. Isto eu aprendi: ninguém transforma ninguém e ninguém se transforma sozinho; nós nos transformamos no Encontro. O futuro da humanidade depende de uma pedagogia e terapia do Encontro.

P: Eu diria que interpretar é compreender.

R: Interpretar é explicar e também compreender. A inteligência analítica é uma função masculina, que fraciona e busca explicar o todo pelas suas partes. A sua importância consiste no desenvolvimento do mundo exterior, através da ciência e da tecnologia. A compreensão vem de um ato de abertura e de silêncio, que acolhe o instante e a sabedoria do não saber, a douta ignorância. Trata-se de uma inteligência feminina e intuitiva, que faz juz ao cerne mesmo da palavra intelegere: ler dentro – das coisas, das letras, dos fatos. A sua importância é a de possibilitar o mergulho no abismo da alma e o aprimoramento do mundo interior. Há mais de duas décadas que eu desenvolvi uma metodologia sintética, para ser aplicada na área da saúde, da educação, da instituição. Análise e síntese são dois caminhos complementares de apreensão da realidade, como duas pernas que possibilitam o caminhar por trilhas aliadas do conhecer e do comungar. Enfim, a compreensão implica uma convergência do saber e do ser.

Fernando Pessoa afirmava que Deus é um grande intervalo. Antes da pausa para o lanche, façamos novamente uma prática do silêncio, com a coluna ereta, a conexão com o sermão da montanha do instante, com a música dos pássaros, o mantra das águas, as vozes humanas, as paisagens da alma, a pausa – esta pátria doce de quietude – entre a inspiração e a expiração, com um leve sorriso na face. Habitar o agora.

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Roberto Crema

Antropólogo, Psicólogo e Mestre em Ciências Humanas e Sociais pela Universidade de Paris, Roberto Crema é Reitor da Universidade Internacional da Paz – UNIPAZ. Implementador da Formação Holística de Base no Brasil e coordenador, durante vinte anos, do Colégio Internacional dos Terapeutas, é orientador, com a Lydia Rebouças, de uma formação no cuidado integral, Quinta Força em Terapia, na UNIPAZ de Brasília. Pioneiro na abordagem transdisciplinar holística, Crema viaja pelo Brasil e pelo mundo proferindo palestras e orientando cursos e seminários. É autor e coautor de mais de trinta livros, tais como “Introdução à Visão Holística”, “Saúde e Plenitude”, “Antigos e Novos Terapeutas”, “Pedagogia Iniciática” e “Mensagens do Deserto”.

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